Plantão | Publicada em 16/08/2011 às
03h15m
André Miranda (andre.miranda@oglobo.com.br)
Atualmente morando no Canadá, onde leciona na Universidade de Ottawa, esse profeta digital está a caminho do Brasil, para participar, no dia 25, às 19h30m, de um debate ao lado de Gilberto Gil, sobre o tema "o poder das palavras na cibercultura", no Oi Futuro Flamengo. A mesa faz parte da programação do projeto Oi Cabeça e tentará responder à difícil questão sobre o espaço que a escrita ocupa na esfera digital.
Em entrevista por telefone ao GLOBO, Lévy falou do uso das redes sociais, do futuro das mídias tradicionais, de como o preconceito contra a internet foi sendo modificado ao longo do tempo e do trabalho para desenvolver a Information Economy Meta Language (IEML), uma nova linguagem para a web à qual ele vem se dedicando nos últimos anos.
Enquanto
conversamos, o primeiro-ministro David Cameron sugere que a Inglaterra crie
alguma forma de controle das redes sociais, a fim de evitar as manifestações
vistas na semana passada. O que o senhor acha da ideia?
PIERRE
LÉVY: É uma
sugestão bastante absurda. É a grande maioria da população inglesa que usa as
redes sociais, e não apenas uma pequena quantidade de criminosos. Além disso,
os criminosos usam as estradas, os telefones, qualquer forma de se encontrar ou
de se comunicar. Não há nada específico que justifique responsabilizar as redes
sociais. Sou contra qualquer tipo de censura na internet, tanto política quanto
de opinião. E vale lembrar que a polícia também pode se utilizar das redes
sociais para encontrar os criminosos. A mídia social pode ser uma ferramenta de
combate ao crime como qualquer outra.
A
intenção de Cameron lembra críticas feitas contra a cultura digital há quase 20
anos. Naquela época, em suas palestras, o senhor dizia que o preconceito das
pessoas contra a cibercultura se assemelhava ao preconceito contra o
rock'n'roll nos anos 1950 e 1960. Alguma coisa mudou?
PIERRE
LÉVY: Sim,
houve mudanças. Naquele tempo, as pessoas diziam que a internet era uma mídia
fria, sem emoções, sem comunicação real. Mas hoje, com a mídia social, as
pessoas compartilham músicas, imagens e vídeos. Há muitas emoções circulando
nesses espaços de comunicação. O que acontecia antes era que as pessoas não
sabiam do que estavam falando. O preconceito, na maioria das vezes, é gerado
pela ignorância. Até mesmo com vocês, jornalistas, isso mudou. Eu lembro bem
que naquela época os jornalistas tinham todo o tipo de preconceito com a
comunicação digital, e hoje todos estão usando essas ferramentas.
Mas
alguns grupos de entretenimento e mídia ainda tentam controlar e restringir as
possibilidades da internet, sob o temor de perder rentabilidade que tinham com
a venda de CDs, DVDs ou publicações impressas. O que o senhor acha que vai
resultar desse embate?
PIERRE
LÉVY: O
problema principal é que, antes da internet, todas essas empresas vendiam
informação através de suportes materiais. Só que, já um pouco hoje e certamente
no futuro, não haverá suportes físicos para levar a informação. É preciso se
adaptar de uma situação em que se distribuíam e vendiam objetos físicos até
outra, em que se distribui e se vende informação na rede. É uma transição
enorme, e é provável que muitas dessas companhias não sobrevivam à necessidade
de sair de uma era em direção à outra. Há milênios, muitos dinossauros morreram
numa transição parecida.
O senhor
está dizendo, então, que os grupos de mídia são dinossauros?
Os grupos
de mídia que não se adaptarem ao novo momento, em que as comunicações são
completamente descentralizadas e mais distribuídas, serão dinossauros e vão
morrer.
Mas o que
vai substituir a maneira como consumimos notícias hoje?
Eu acho
que as notícias serão consumidas através das redes sociais, como Twitter,
Facebook ou Google+. A mídia social permite que você escolha suas fontes e
ordene suas prioridades entre as fontes. Você pode personalizar a forma como
vai receber as notícias. Será assim no futuro: o usuário terá a habilidade de
priorizar as fontes e os temas e escolher deliberadamente o que ele quer saber.
Será uma atividade que a próxima geração já vai aprender a fazer nas escolas.
Alguns
críticos, porém, costumam dizer que as ferramentas de internet que temos hoje
não permitem um acesso democrático à informação. O Google, por exemplo, cria um
ranking de resultados que de certa forma guia sua busca...
Espera um
pouco. Você não pode acusar o Google de não ser democrático. O Google não é um
governo, é uma empresa. Ele lhe oferece um serviço, e ele vende anúncios que
serão vistos pelo usuário para se manter. Essa discussão não passa por
democracia. O que eu posso dizer é que o ranking formado pelos algoritmos do
Google é bastante primitivo. São mínimas as possibilidades de personalização de
seu ranking. No futuro, especialmente graças a meu IEML (risos), todos poderão
ser capazes de organizar sua própria ferramenta de busca de acordo com suas
prioridades. Hoje, o Google praticamente oferece um mesmo serviço para qualquer
tipo de pessoa.
Em que
ponto estão as pesquisas do IEML?
Eu
publiquei neste ano o primeiro volume, "La sphère sémantique", e
agora estou trabalhando no segundo volume. O volume 1 é sobre a origem
filosófica e semântica da linguagem. Já o volume 2 vai trazer um dicionário e
explicar como utilizá-lo. Deve ser lançado no ano que vem. É um projeto longo,
não dá para esperar ferramentas práticas nos próximos meses, mas espero que nos
próximos cinco anos possamos ver algumas aplicações.
Que
aplicações o senhor espera?
O
argumento principal é o da interpretação coletiva da web. É difícil dizer
exatamente que tipo de aplicação. A ideia é dar às comunidades uma
representação científica de seu próprio processo de comunicação. Ele poderá se
assemelhar a um grande circuito de conceitos, onde você observa a circulação de
emoções e atenções. Isso poderá ser utilizado para marketing, educação,
comunicação e pesquisa, por exemplo. Será uma nova forma de representar a
relação entre conceito e ideias na internet. O sistema de escrita que usamos
hoje na web é desenhado para mídia estática. Nós ainda temos que desenvolver
sistemas simbólicos de escrita que sejam capazes de explorar todas as
capacidades de um computador.
O senhor
usa bastante as redes sociais?
Sim,
estou no Twitter, no Facebook, no Google+ e em muitas outras. Mas não recomendo
isso para ninguém, é preciso muito tempo para acompanhar tudo. Eu estou em
tantas redes porque é meu trabalho, preciso saber do que estou tratando. Entre
todas, o Twitter é a de que mais gosto, porque ele é prático e rápido para
receber e procurar informações.
Quanto
tempo por dia o senhor passa conectado?
Eu fico
praticamente o tempo todo conectado. Consulto enciclopédias e dicionários na
internet. Ouço rádios on-line. Acho que só não estou conectado quando estou
dormindo. Mas, em relação a trocar e-mails e mensagens através de redes sociais,
passo de uma a duas horas por dia nessas atividades. E não assisto a TVs nem
leio jornais em papel. Só leio notícias na internet.
E livros
em papel?
Eu tenho
um tablet, mas estou velho e ainda prefiro ler livros no papel. Certamente, no
futuro, a grande maioria dos livros será lida nos tablets ou em periféricos
como o Kindle, muito pela possibilidade de interatividade. Os livros passarão a
ser escritos dessa forma, com esse objetivo
.
No Rio, o
senhor vai participar de uma mesa de debate com Gilberto Gil. O senhor conhece
a obra dele?
Eu já me
encontrei com o Gil pessoalmente. Ele é um grande músico, um grande artista.
Mas, além disso, também é uma pessoa que tem um pensamento bastante instigante
sobre as consequências da revolução da mídia e da cultura. Será bom debater com
ele.




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